O que tem dentro da água: Praia do Funil e Lago de Palmas
Isso não é o mar. É água doce no meio do cerrado, e a primeira pergunta que me fazem sobre ela quase nunca é sobre a paisagem.
Revisado em agosto de 2026
Isso não é o mar. É água doce no meio do cerrado, e a primeira pergunta que me fazem sobre ela quase nunca é sobre a paisagem: é sobre os animais. A segunda, de quem já mergulhou no mar, é sobre visibilidade. Vou responder as duas com o que eu vejo lá embaixo, que é onde eu passo boa parte da minha vida.
O lugar
Eu conheci esse ponto num curso, mergulhando um pouco acima de onde a gente opera hoje, e fiquei encantado com a água. Para quem estava acostumado a mergulhar em água turva, aquela água doce cristalina parecia o Caribe. Aí eu comecei a explorar de verdade, e achei o trecho entre a Praia do Funil e a Praia do Paredão, que é fenomenal tanto de vida quanto de relevo.
Não é uma piscina lisa. Tem formação rochosa, tem paredão, tem faixa de areia clara, tem tronco submerso, e tem cavernas pequenininhas, que a gente explora com quem já tem treinamento para isso, nunca em batismo. Hoje eu conheço aquele fundo de olho fechado, e é por isso que consigo planejar cada mergulho antes de entrar: tem cabo-guia, tem um trajeto combinado, e ninguém sai do combinado.
A luz é a outra metade do passeio. Perto da superfície, em dia de sol, você vê os feixes atravessando a água com as partículas passando dentro deles. Mais fundo, o verde domina e o contorno das coisas passa a depender da lanterna. O mesmo ponto às dez da manhã e às três da tarde não parece o mesmo lugar.
E os animais?
Tem animais, e é bonito. Eu já filmei uma raia ali, perfeita. Já nadei um tempão do lado de uma pirarara sem que ela se espantasse: ela ia nadando, virava e me olhava. O maior peixe que eu vi foi uma piraíba maior do que eu, que dentro d'água parecia um tubarão. O jaú costuma ficar entre as pedras, nas locas, e quando você chega com a lanterna vê só os bigodinhos dele balançando ali no escuro. Cuiú-cuiú tem bastante, grande e pequeno. Na superfície aparece boto, e eu ainda tenho esperança de convencer um a passear comigo lá embaixo.
Nada disso é promessa. Animal não cumpre agenda, e no dia em que você for pode ser que apareça um, três ou nenhum. O que eu faço é te contar no briefing o que tem aparecido naquela semana, porque essa informação é do dia, não de um texto escrito meses antes.
Agora o que ninguém pergunta em voz alta. Jacaré, cobra, essas coisas que a cabeça inventa: no rio Tocantins, no ponto onde a gente mergulha, eu nunca encontrei um jacaré. Em outros rios da região, sim, já vi, e mesmo lá eles ficaram na deles. E tem um motivo simples para você não virar assunto para eles: o mergulhador faz um barulho debaixo d'água que aqueles animais nunca ouviram na vida. O barulho da respiração já espanta eles dali antes de você chegar perto.
O que atrapalha de verdade
Se for para ter cuidado com alguma coisa, não é com os animais. É com o que o ser humano deixou lá.
Aquela região é muito pescada, e eu já me enrosquei bastante em rede, tarrafa, linha e espinhel. Quem deixou aquilo ali não imagina que está deixando uma armadilha, mas está. Mergulhador que mantém a calma e faz a coisa certa se solta tranquilo, e é justamente por isso que a gente não improvisa trajeto. A outra é barco e jet ski: o som viaja mais rápido na água, então a gente escuta o motor de longe, só que sem saber de onde vem. Por isso marcamos o ponto com boia e avisamos quem está passando de que tem mergulhador embaixo.
E tem a visibilidade, que quase nunca é culpa da água. É da nadadeira. Uma batida perto do fundo arenoso levanta uma nuvem que demora a assentar, e quem paga por ela é o grupo inteiro, não quem levantou. No batismo você não precisa dominar nada disso, porque quem cuida da sua posição sou eu, enquanto você olha.
Sobre a época: aqui no Tocantins, de maio a agosto, o rio não enche. Ele baixa. É a seca que expõe as faixas de areia que viram praia, e água baixa é justamente quando ela fica mais limpa para enxergar longe. A janela está aberta agora.
Uma última coisa, para quem só mergulhou em água salgada e acha que rio é mergulho de segunda. A diferença de verdade é a densidade: no mar você precisa de bastante peso para descer e se locomover, no rio quase não precisa. Na prática, mergulhar aqui é mais fácil, e é tão prazeroso quanto. Tem época do ano em que a nossa água fica melhor que a de pontos famosos do litoral. Se você nunca respirou debaixo d'água, o caminho de entrada é o batismo: como é um mergulho de batismo com a Jalapão Dive Center.
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Por Rafael Menezes, instrutor SDI/TDI/ERDI #22670